Também quero meu Nobel

No mínimo, foi surpreendente a escolha de Obama para o Prêmio Nobel da Paz. Negativamente surpreendente. Se bastasse um punhado de belos discursos para garantir a paz mundial, esta já teria sido obtida há muito tempo. E mesmo que a prática do novo governo estadunidense correpondesse à retórica, nove meses não seriam tempo suficiente para se avaliar as reais conseqüências do “novo clima na política internacional” a que se refere o comunicado do Comitê do Nobel. Geralmente os prêmios são concedidos a indivíduos ou instituições que concretizaram algo efetivo no caminho da paz, e não apenas aos portadores de boas intenções. E ainda se estas fossem boas! A verdade é que a concessão do prêmio a Obama esconde o fato de que atualmente ele é o responsável por algumas das mais violentas guerras que ocorrem no mundo, tendo responsabilidade ainda pela omissão na solução de outros conflitos. O fato de sua personalidade ser mais decente do que a de seu antecessor não deve servir para distorcer o fato de que ele ainda é o comandante-chefe de um império belicista e unilateralista.
Na mesma semana em que recebeu o prêmio, Obama reuniu-se com seu conselho de guerra para decidir os rumos da guerra no Afeganistão. Uma das medidas que Obama irá adotar é o aumento do número de soldados no país, assim como dos “seguranças terceirizados”, responsáveis por grande parte das ações violentas contra a população civil afegã (o número destes já aumentou em 30% em relação ao início do ano). A guerra completa oito anos, e não há perspectiva de que irá terminar tão cedo. O desejo estadunidense em controlar os oleodutos daquela região e a tacanhez de sua política externa fazem do entorno do Mar Cáspio um poço sem fundo para os militares estadunidenses. A saída seria diplomática e econômica, e não militar.
Os oficiais estadunidenses também estão debatendo opções para expandir a guerra no Paquistão. A embaixada dos EUA em Islamabad, uma das maiores do mundo, vem sendo preparada para se tornar o quartel general para as “ações pontuais” realizadas pelos comandos do império. Também no Paquistão o governo estadunidense utiliza-se dos serviços de “segurança terceirizada” para “buscar e capturar terroristas” (e, na maioria das vezes, aterrorizar a poulação civil). Para simplificar, voltarei a me referir a estes soldados subcontratados pelo substantivo que melhor os caracteriza: mercenários.
No Iraque, a “retirada das tropas” proposta pelo recém-laureado presidente esconde o plano de confiar plenamente nas empresas terceirizadas de segurança para aumentar a presença militar estadunidense no país, compensando a retirada de soldados (destinada a ganhar o apoio interno, e quem sabe mesmo, algum prêmio como pacifista...). Nesse ano houve um aumento de 23% no número de mercenários trabalhando para o governo estadunidense no Iraque. Estes já respondem por aproximadamente 50% da força estadunidense no Iraque e no Afeganistão – cerca de 243.000 subcontratados com impunidade para humilhar e matar os árabes e muçulmanos.
Finalmente, na Palestina evidencia-se o maior fracasso da “nova política multilateral e pacifista” do novo presidente estadunidense. Com a recusa em condenar a selvageria israelense em Gaza ou em efetivamente impedir a contínua ocupação israelense dos territórios palestinos por meio da construção de novos assentamentos, Obama deu carta branca ao governo ultra-reacionário sionista para prosseguir seus planos de guetização e ocupação permanente da Palestina. A cada dia uma solução de compromisso torna-se mais difícil na região, e a inação do novo detentor do Prêmio Nobel é uma das maiores responsáveis pela manutenção do estado de coisas, tendo como desígnio final a total subissão e desumanização do povo palestino.
Enfim, se alguns discursos e projetos de Obama lhe garantiram o prêmio Nobel da Paz, reivindico meu Prêmio Nobel de Literatura pelas obras-primas que gostaria de escrever. E pelas postagens desse blog.

3 comentários:

Cris disse...

Veja pelo lado positivo... até que o prêmio veio bem a calhar, pois embute a responsabilidade de não fazer "cagadas a la Bush" durante seus próximos anos de mandato... é um belo peso nas costas.

André Gattaz disse...

Ou olhe pelo lado negativo: o prêmio pode servir como uma "carta branca" para que Obama continue fazendo Bushits!!!

GILBERTO PEREIRA disse...

Se calhar nem um, nem outro. É melhor acharmos um meio termo. Deixemo-lo que fique com o Nobel para que as boas intenções se concretizem. E também retiramo-lo para que não concretize a sua dita "guerra justa". Embora a pujança e administração estadunidense vai para além da presidência...
Pra ja, um abraço André, gostei do seu blog. convido-o a entrar no meu e deixar comentário www.visoesdoglobo.blogspot.com