Guerra Fria, 11 de setembro e o fim do sonho americano

ROTEIRO CINEMATOGRÁFICO EM 10 CENAS CURTAS


1) Primeira Guerra Mundial: grande aumento da produção industrial estadunidense, especialmente de armas;
2) Fim da Primeira Guerra: reconversão da indústria bélica à civil;
3) Anos 1920: aumento da produção industrial e agrícola estadunidense;
4) Anos 1929-1933: Grande Depressão (uma crise gerada pela superprodução);
5) Segunda Guerra mundial: idem a (1)
6) Fim da II GM: receio de se reconverter a indústria bélica para não repetir (3) e (4). Necessidade de se manter os gastos militares, porém o Nazismo foi derrotado. Ideia genial: cria-se um novo inimigo, a terrível URSS que ameaça "conquistar o mundo" para o comunismo. Cinema e meios de comunicação colaboram para população estadunidense apoiar altos gastos militares. Os demais países ocidentais são forçados a entrar na órbita militar dos EUA em busca de "proteção".
7) Fim da Guerra Fria e Governo Clinton: decréscimo substancial dos gastos militares do governo, para grande insatisfação do Complexo Industrial Militar.
8) Setembro de 2000: Institute for a New American Century publica documento que trata da necessidade de um evento "semelhante a Pearl Harbor" para os EUA voltarem a exercer hegemonia mundial (e especialmente sobre a região central da Eurásia, onde se encontram as grandes reservas energéticas do Golfo Pérsico, Irã-Iraque e Mar Cáspio);
9) 11 Setembro de 2001: "América é atacada". A última vez tinha sido em 1941, quando os japoneses atacaram Pearl Harbor, levando os EUA a entrarem na Segunda Guerra Mundial. Logo: uma nova guerra teria de ser declarada. Ideia genial: cria-se um novo inimigo: o satânico vilão malvado perverso e feio que por coincidência vive bem em cima das reservas citadas em (8): o muçulmano.
10) De setembro de 2001 a setembro de 2011: com a "Guerra ao Terror", os gastos militares dos EUA crescem exponencialmente, atingindo valores estratosféricos e comprometendo qualquer esforço de responsabilidade fiscal do governo. Somados aos estímulos posteriores à crise de 2008, fizeram a dívida pública aumentar de 5 a 14 trilhões de dólares e a receita federal passar de superavitária a deficitária, ao que se uniu o endividamento excessivo das famílias e empresas. É o fim do "sonho americano".

FIM

O que muda sem Bin Laden?

É claro que sempre há quem possa questionar a veracidade da notícia, dada pelos Estados Unidos, da morte de seu arquiinimigo Osama Bin Laden. Afinal, a invenção de notícias e a promoção de eventos diversionistas não é novidade na história estadunidense. Porém, assim como não temos provas de que Bin Laden tenha morrido, tampouco temos provas de que ele está vivo, portanto podemos nos questionar: o que muda sem Bin Laden?
No meu entender, a ausência do líder da Al-Qaeda deve alterar muito pouco a geopolítica mundial, tendo efeito positivo apenas sobre a popularidade de Barack Obama entre o público estadunidense. Na região que se estende do Marrocos ao Paquistão, são três os grandes focos atuais de conflitos, e apenas quando estes três aspectos forem solucionados poderá haver um período de paz e prosperidade à região.
• a “primavera árabe” vem opondo, entre muitos países árabes que se estendem do Marrocos ao Iraque, a população jovem a governos autoritários, conservadores e sectários há muito tempo implantados no poder. O processo rápido e relativamente indolor na Tunísia e no Egito deu a impressão de que a derrubada dos ditadores da região seria um passeio no parque. Os presidentes da Líbia e da Síria estão mostrando que o passeio não será tão agradável. No centro da questão, o dilema dos Estados Unidos: apoiar os governos que há anos lhes vêm sendo úteis, reprimindo manifestações extremas de grupos anti-ocidentalizantes e garantindo a segurança energética do país (leia-se: petróleo), ou defender os direitos humanos, a democracia e a autodeterminação popular, que seu presidente considera serem direitos “universais” (e que podem eventualmente levar a governos que lhes são contrários) ?
• a “questão palestina” continua premente. A cada dia mostra-se mais distante a possibilidade da criação de um Estado palestino, e é possível que em breve Israel veja-se obrigado a incorporar a população palestina ao Estado judaico, para depois passar por sua “primavera árabe”. A recente união entre Fatah e Hamas não deve ser vista com esperança, pois pode fornecer o pretexto para novas ações terroristas por parte do Estado de Israel, desalojando a população palestina para a construção de suas colônias. Embora aparentemente restrito, a manutenção desse impasse tem conseqüências sobre todo o mundo árabe.
• o pano de fundo dos conflitos no Oriente Médio continua sendo a óleo-dependência estadunidense. Os atentados de 11 de setembro, assim, tiveram a função instrumental de dar ao ex-presidente estadunidense “carta branca” para agir na região do Mar Cáspio e Golfo Pérsico, onde se encontram as maiores reservas petrolíferas do mundo. A ocupação do Afeganistão e do Iraque, assim, não tem data para terminar, mantendo-se como fonte de instabilidade na região. Direitos sobre o petróleo levam a conflitos também entre outros antagonistas na região (como a Chechênia e o governo da Federação Russa), e enquanto não se criar um novo paradigma energético (no consumo e não na produção), é de se supor que o Oriente Médio continuará sendo foco de conflitos.

Também quero meu Nobel

No mínimo, foi surpreendente a escolha de Obama para o Prêmio Nobel da Paz. Negativamente surpreendente. Se bastasse um punhado de belos discursos para garantir a paz mundial, esta já teria sido obtida há muito tempo. E mesmo que a prática do novo governo estadunidense correpondesse à retórica, nove meses não seriam tempo suficiente para se avaliar as reais conseqüências do “novo clima na política internacional” a que se refere o comunicado do Comitê do Nobel. Geralmente os prêmios são concedidos a indivíduos ou instituições que concretizaram algo efetivo no caminho da paz, e não apenas aos portadores de boas intenções. E ainda se estas fossem boas! A verdade é que a concessão do prêmio a Obama esconde o fato de que atualmente ele é o responsável por algumas das mais violentas guerras que ocorrem no mundo, tendo responsabilidade ainda pela omissão na solução de outros conflitos. O fato de sua personalidade ser mais decente do que a de seu antecessor não deve servir para distorcer o fato de que ele ainda é o comandante-chefe de um império belicista e unilateralista.
Na mesma semana em que recebeu o prêmio, Obama reuniu-se com seu conselho de guerra para decidir os rumos da guerra no Afeganistão. Uma das medidas que Obama irá adotar é o aumento do número de soldados no país, assim como dos “seguranças terceirizados”, responsáveis por grande parte das ações violentas contra a população civil afegã (o número destes já aumentou em 30% em relação ao início do ano). A guerra completa oito anos, e não há perspectiva de que irá terminar tão cedo. O desejo estadunidense em controlar os oleodutos daquela região e a tacanhez de sua política externa fazem do entorno do Mar Cáspio um poço sem fundo para os militares estadunidenses. A saída seria diplomática e econômica, e não militar.
Os oficiais estadunidenses também estão debatendo opções para expandir a guerra no Paquistão. A embaixada dos EUA em Islamabad, uma das maiores do mundo, vem sendo preparada para se tornar o quartel general para as “ações pontuais” realizadas pelos comandos do império. Também no Paquistão o governo estadunidense utiliza-se dos serviços de “segurança terceirizada” para “buscar e capturar terroristas” (e, na maioria das vezes, aterrorizar a poulação civil). Para simplificar, voltarei a me referir a estes soldados subcontratados pelo substantivo que melhor os caracteriza: mercenários.
No Iraque, a “retirada das tropas” proposta pelo recém-laureado presidente esconde o plano de confiar plenamente nas empresas terceirizadas de segurança para aumentar a presença militar estadunidense no país, compensando a retirada de soldados (destinada a ganhar o apoio interno, e quem sabe mesmo, algum prêmio como pacifista...). Nesse ano houve um aumento de 23% no número de mercenários trabalhando para o governo estadunidense no Iraque. Estes já respondem por aproximadamente 50% da força estadunidense no Iraque e no Afeganistão – cerca de 243.000 subcontratados com impunidade para humilhar e matar os árabes e muçulmanos.
Finalmente, na Palestina evidencia-se o maior fracasso da “nova política multilateral e pacifista” do novo presidente estadunidense. Com a recusa em condenar a selvageria israelense em Gaza ou em efetivamente impedir a contínua ocupação israelense dos territórios palestinos por meio da construção de novos assentamentos, Obama deu carta branca ao governo ultra-reacionário sionista para prosseguir seus planos de guetização e ocupação permanente da Palestina. A cada dia uma solução de compromisso torna-se mais difícil na região, e a inação do novo detentor do Prêmio Nobel é uma das maiores responsáveis pela manutenção do estado de coisas, tendo como desígnio final a total subissão e desumanização do povo palestino.
Enfim, se alguns discursos e projetos de Obama lhe garantiram o prêmio Nobel da Paz, reivindico meu Prêmio Nobel de Literatura pelas obras-primas que gostaria de escrever. E pelas postagens desse blog.

A mídia e o Irã

Muitos têm razões para desejar a queda do presidente Mahmoud Ahmadinejad. O recente noticiário sobre as manifestações no Irã deixa isto bem evidente. A mídia ocidental já escolheu seu campo, e sequer analisa a hipótese de que Ahmadinejad efetivamente tenha vencido por ampla margem, deixando-se impressionar pelas multidões em passeata nas ruas de Teerã.
É verdade que há denúncias de fraudes, porém aparentemente estas não foram generalizadas. O Conselho dos Guardiões propôs que fosse realizada uma recontagem dos votos, mas o candidato derrotado Hossein Mousavi e seus apoiadores se opuseram a isto, talvez por temer que a recontagem aponte nova vitória de Ahmadinejad.
Goste-se ou não do polêmico presidente iraniano, a vontade popular deve ser respeitada (mesmo que sejam tantas as vezes em que não gostamos dos “legítimos representantes eleitos” de certas nações...). E diversas evidências indicam que é bastante possível que o resultado reflita o voto real da população:
• inicialmente há de se considerar que enquanto Mousavi tem o apoio da classe média urbana e da elite social, Ahmadinejad é identificado como o candidato dos pobres – e há muitos pobres no Irã, que se beneficiam dos generosos programas sociais do governo, e ouvem os sermões dos clérigos conservadores nas mesquitas;
• embora se fale muito na importância da Internet na mobilização da oposição, não se informa que apenas um em três iranianos tem acesso à rede, e regiões inteiras do país são “desconectadas”;
• enquanto na mídia ocidental comenta-se que Ahmadinejad não teria vencido entre os Azeris (etnia presente no noroeste do país, e da qual provém o candidato derrotado Hossein Mousavi), pesquisas independentes indicam que esta etnia votou majoritariamente a favor do atual presidente;
• além disso, ao contrário da crença divulgada no Ocidente, a população jovem, mesmo das cidades, apóia Ahmadinejad.
É bem provável, assim, que Ahmadinejad tenha vencido as eleições, com o apoio dos pobres, das populações rurais e dos tradicionalistas religiosos, com Mousavi conquistando o voto das classes médias e educadas das grandes cidades.
À mídia ocidental cabe olhar para o resultado destas eleições com maior parcialidade, despindo-se do manto de hipocrisia com que se refere assuntos tais como os problemas políticos do Oriente Médio.

Crimes de guerra? Deixa pra lá!

Como previu este analista na primeira postagem a respeito do Massacre em Gaza, Israel encerrou seu covarde ataque contra a população de Gaza após três semanas de bombardeios aéreos e ações terrestres – em 29/dez, eu escrevia: “Aparentemente, pouco mais de 20 dias é do que o exército israelense precisa para ‘liquidar o Hamas’, restando outros tantos dias para o governo israelense beneficiar-se da ilusória sensação de vitória.” Encerrada a fase “militar”, assim, passamos à fase dos pretensos ganhos “políticos”, supondo-se que o Kadima saberá transformar em votos o apoio ganho durante o massacre.
E foi realmente um massacre, uma espécie de vingança cega justificada pela morte de três civis israelenses atingidos pelos foguetes lançados pelo Hamas. Assim, um Estado-membro da ONU escolhe, contrariamente à ação diplomática, a ação militar para punir coletivamente toda a população da Faixa de Gaza, de onde brota a resistência contra a ocupação sionista.

O resultado desta matemática perversa é:
Para TRÊS CIVIS MORTOS em Israel:
• mais de 1.300 PALESTINOS EXECUTADOS – sendo a grande maioria civis (os grupos de resistência palestinos reportam a morte de apenas 149 militantes) e mais de 400 crianças;
• mais de 5.000 palestinos feridos;
• mais de 4.000 casas totalmente destruídas e outras 21.000 parcialmente destruídas, com mais de 100.000 palestinos desabrigados;
• destruição de toda infra-estrutura política e admistrativa da Faixa de Gaza, além de pontes, estradas, 10 estações geradoras de eletricidade e rede de esgotos;
• destruição da Universidade Islâmica de Gaza e de 25 outras escolas;
• destruição de vários hospitais e de 20 ambulâncias;
• destruição de 1.500 fábricas, ateliês e lojas.
• mais de 400.000 pessoas sem água corrente, quase 1.000.000 de pessoas sem energia;
• utilização de armas químicas banidas pela Convenção de Genebra (bombas de fósforo usadas em áeas urbanas).

Covardia internacional
Na década de 1930, a Alemanha nazista crescia como força imperialista. Em 1934, abandonou a Liga das Nações; em 1935 iniciou sua remilitarização; em 1936, ocupou militarmente a Renânia (que, por exigência francesa, deveria permanecer livre de tropas alemãs); em 1938, anexou a Áustria, e Hitler pasosu a exigir os Sudetos, pertencentes à Tchecoslováquia. Em setembro daquele ano, as potências ocidentais reuníram-se na tristemente célebre Conferência de Munique, onde solenemente entregaram a Hitler o território desejado. Em março de 1939, a Alemanha ocuparia o restante da Tchecoslováquia, e após o tratado com a União Soviética, invadiu a Polônia, dando início à II Guerra Mundial.
Até hoje é objeto de debate entre os historiadores o motivo da “não-intervenção” das potências da década de 1930 nos processos de fascistização ocorridos em diversos países europeus – que em muitos aspectos contrariavam a legislação internacional, os tratados posteriores à Primeira Guerra (Versalhes e outros) e a Carta da Liga das Nações. Enquanto os franquistas derrubavam o governo legitimamente eleito na Espanha e davam início à Guerra Civil, enquanto a Itália ocupava a Etiópia ou o Japão ocupava a Manchúria, enquanto Hitler iniciava a perseguição aos judeus na Alemanha, o mundo “democrático”, “republicano”, enfim, “civilizado”, se calava. O resultado todos conhecemos.
Hoje, o Estado de Israel porta-se como se portou o governo nazista da Alemanha nos anos anteriores à Guerra. É uma opção sua. O que é insuportável é a covardia da comunidade internacional diante de atos como os ataques a escolas da ONU que serviam de refúgio a civis, o bombardeio ao armazém da ONU na Faixa de Gaza (com a destruição de todos os estoques de alimentos e remédios emergenciais para os palestinos) ou a utilização de bombas de fósforo em áreas civis – que se caracteriza claramente como CRIME DE GUERRA e seria suficiente para levar qualquer liderança político-militar não israelense para o Tribunal Internacional de Crimes de Guerra.
O governo israelense, entretanto, goza de imunidade internacional, e daqui a poucos dias os crimes cometidos em Gaza cairão no esquecimento – com a ajuda da grande imprensa e dos governos ocidentais. Em breve o Hamas se rearticulará. Novos ataques contra Israel ocorrerão. E novamente ouviremos as notícias que os terroristas atacaram Israel. Como esses palestinos são malvados!

Massacre em Faixa de Gaza

Israel iniciou no último sábado (27/12) o que seu governo vem considerando “a última ofensiva” contra o Hamas, acusado por Israel e Estados Unidos de ser um grupo “terrorista”. Nos três primeiros dias de violentos ataques aéreos, os mortos já passam de 300, e os feridos já são mais de um milhar, incluindo centenas de crianças e mulheres não envolvidas em atividades militares. Além disso, milhares de reservistas israelenses foram convocados, e o Exército vem concentrando tropas e tanques na fronteira com a Faixa de Gaza, preparando-se para uma incursão terrestre. É certamente – pelo menos no que diz respeito ao numero de mortos entre os palestinos – a pior ação israelense desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967.
O pretexto usado pelo governo sionista para deslanchar mais este ataque contra a população palestina foram os foguetes caseiros disparados por militantes do Hamas contra as cidades ao sul de Israel. Há porém um grave problema nesta afirmação: não leva em consideração que os foguetes disparados pelo Hamas não são a origem do problema, mas uma reação à continuada e ilegal ocupação sionista da Palestina. Além disso, há de se considerar que nos últimos quatro anos (desde o fim da Segunda Intifada), os foguetes palestinos causaram a morte de oito civis israelenses, enquanto os constantes bombardeios à Faixa de Gaza deixaram mais de 1.500 palestinos mortos e mais de 5.000 feridos. É o que se chama, em linguagem diplomática, “reação desproporcional”...
Desproporcional e contraproducente. Sob o ponto de vista da política realista, não é inteligente atacar com tamanha violência um povo que luta para se libertar (como a farta história das lutas anti-coloniais o confirma). Embora em curto prazo o resultado possa satisfazer a opinião pública israelense – pois certamente cessarão os ataques com foguetes contra as cidades ao sul de Israel – o resultado em longo prazo tende a ser o oposto, uma vez que a mais esperada conseqüência do massacre da população palestina e destruição de sua sociedade e seu país é a radicalização. A cada líder ou membro do Hamas morto por Israel, outros militantes surgirão. A cada criança ou mulher inocente morta por Israel, maior será a sede por vingança.

Guerra e Política
Neste sentido, o ataque a Gaza explica-se mais pela dinâmica da política israelense do que sob o ponto de vista militar – lembra-se que foram convocadas eleições legislativas em Israel para o início de fevereiro, e as pesquisas indicam ampla liderança da extrema-direita capitaneada pelo ex-primeiro ministro Benjamin Netanyahu. Assim, o triunvirato formado por Ehud Olmert (primeiro-ministro), Ehud Barak (ministro da defesa) e Tzipi Livni (ministra das relações exteriores e, aparentemente, ex-futura-primeira-ministra), decidiu por uma jogada bastante comum na política israelense: a radicalização do conflito com os palestinos com o conseqüente “endurecimento” da ação militar – vendida à opinião pública israelense como uma “reação firme contra o terrorismo palestino”. O trio Olmert-Barak-Livni, assim, tem pouco mais de um mês para mostrar a correção de suas políticas – e, prevendo-se a óbvia diminuição do lançamento de foguetes palestinos contra Israel, pode-se estimar que o massacre ora empreendido em Gaza acabe por salvar a atual coligação no poder, levando a águia Tzipi Livni a assumir a cadeira de primeira-ministra.
Deve-se considerar ainda, entre os fatores que pesaram para desencadear a operação, a proximidade da troca presidencial nos Estados Unidos, a ocorrer no dia 20 de janeiro. Aparentemente, pouco mais de 20 dias é do que o exército israelense precisa para "liquidar o Hamas", restando outros tantos dias para o governo israelense beneficiar-se da ilusória sensação de vitória.

Pária internacional
O Estado de Israel apresenta-se hoje como o país que demonstra o maior desprezo pelo Direito Internacional e pelos Direitos Humanos. Em seus 60 anos de existência, poucos foram os momentos em que foi buscada a convivência harmoniosa com seus vizinhos árabes, enquanto os períodos de vilania predominaram em quase todos os governos sionistas, fossem de “esquerda” ou de direita. Seu futuro é duvidoso. Falta-lhe moral, falta-lhe humanidade, falta-lhe a memória para recordar o que sofreram os judeus nas mãos dos nazistas nas décadas de 1930 e 1940.
Israel é hoje o mais desprezível dos países.

O Rei está Nu

O jornalista iraquiano Muntazer al-Zaidi protagoniou neste domingo o que pode se tornar a cena mais significativa dos oito anos de governo Bush – acredito que daqui a algumas décadas, quando nos lembrarmos deste período, a imagem que nos virá à cabeça é a dos sapatos sendo arremessados contra o líder do Império estadunidense, e não a das torres caindo.
No Oriente Médio, um dos maiores insultos é atirar os sapatos – quem não se lembra da estátua de Saddam Hussein sendo “sapateada” em maio de 2003, ou da própria bandeira dos Estados Unidos e de Israel sendo pisoteada em qualquer protesto da rua palestina? Outro grave insulto é chamar alguém de “cachorro” – honra que o jornalista também concedeu a Bush.
Considero a cena significativa, pois revela de maneira clara a decadência do Império estadunidense – que teve seu auge nos anos 1990, com o governo do democrata Bill Clinton, a inexistência de concorrentes comerciais e militares, e a adesão quase universal aos princípios do livre mercado e da cultura hollywoodiana. Tudo mudou no início de 2001, porém, quando se iniciou o governo de George Bush Júnior, após eleições fraudadas, e retornaram ao poder os denominados “neoconservadores”. Estes, após promoverem os atentados de 11 de setembro de 2001, levaram o país a adotar uma postura imperial distinta da hegemonia obtida pelo consenso, preferindo a boa e velha hegemonia da força bruta.
As guerras desde então empreendidas, (contra o Talebã, contra Saddam, contra o “Terrorismo Internacional”) levaram o país a uma situação próxima da falência, e avizinha-se a “Grande Crise” da quebra do Estado estadunidense (a atual crise NÃO É o principal sinal da falência dos EUA; a verdadeira Grande Crise ocorrerá apenas quando os agentes financeiros internacionais reconhecerem que os EUA não têm mais condições de honrar suas dívidas). A decadência do Império é inegável e irremediável, e não houve ninguém que tenha o expressado de maneira melhor do que Muntazer al-Zaidi – hoje, o herói do mundo árabe.

Jornalistas em perigo
A propósito, vale destacar que o jornalista al-Zaidi havia sido seqüestrado e torturado durante dois dias, em novembro de 2007, por indivíduos não identificados que lhe interrogaram sobre sua atividade profissional (ver matéria). No Iraque, desde o início da invasão bushiana, foram mortos 222 jornalistas e assistentes (veja site do Repórteres Sem Fronteiras). Acredito que o presidente estadunidense não goze de grande estima entre os jornalistas iraquianos...

Sete anos de guerra no Afeganistão

Neste dia 6 de dezembro, completam-se sete anos da rendição do Talebã no Afeganistão – país invadido menos de um mês após os atentados de 11 de setembro de 2001, por uma coligação liderada pelos Estados Unidos. O objetivo expresso era lutar contra o regime malvado – o Talebã – que teria dado abrigo aos terroristas malvados – a Al Qaeda – que teriam promovido o atentado contra os símbolos do poder econômico e militar estadunidense.
Lembram-se como foi fácil derrubar o governo dos malvados? (Que para facilitar a identificação, se vestiam todos de preto, com turbantes na cabeça...) Em menos de dois meses, as tropas ocidentais e seus aliados afegãos controlavam quase todo o país, tendo facilmente derrotado o governo que se opunha à construção de oleodutos estadunidenses em seu território.
Pois bem: sete anos se passaram, e o que no início pareceu ser mais um “passeio” da superpotência mundial e seus aliados, acabou por se tornar mais uma guerra inconclusa, como outras ocorridas no século XX, sobretudo as que envolveram colonizadores contra colonizados. Nestas, o poderoso exército invasor não enfrenta um outro exército, identificado, uniformizado, acantonado, porém envolve-se numa guerra de guerrilhas, contra combatentes irregulares, indistintos da população civil, incentivados pelo inevitável fanatismo de quem defende sua terra e suas crenças. Os Estados Unidos, com a trágica lembrança da guerra do Vietnã, deveriam saber disso – como o sabem muito bem os russos, que durante nove anos tentaram proteger o governo comunista de Cabul, sendo finalmente derrotados em 1988 para os mujahedim apoiados pelos Estados Unidos e pelo Paquistão (o que levou, após mais alguns anos de conflitos internos, à subida ao poder do Talebã em 1997).
Hoje, o Talebã e outras milícias comandadas por chefes regionais voltaram a controlar grande parte do país, enquanto a coligação ocidental tem poder bastante limitado fora da região entre Cabul e Jalalabad. O cultivo de papoulas voltou florescer e a produção de ópio novamente é a mais rentável do país. Os ataques aos 65.000 soldados da coalizão da OTAN vêm crescendo continuamente desde 2005, tornando-se também mais efetivos. Quanto ao número de civis mortos, embora desconhecido, vem aumentando significativamente nos últimos meses, uma vez que diante da dificuldade do confronto direto, a coalizão ocidental vem aumentando a intensidade dos bombardeios contra os “campos de treinamento de terroristas” – muitas vezes confundidos com vilarejos onde as vítimas são apenas mulheres, crianças e velhos.
Para o futuro presidente dos Estados Unidos, duas políticas conflitantes apresentam-se: a primeira, que vem sendo a cada dia mais abertamente defendida no próprio Afeganistão, envolve reconhecer o poder do Talebã no país, trazendo-o à mesa de negociações e à partilha do poder, e transformando a Al-Qaeda em inimigo comum. A segunda, defendida pelos generais no campo de batalha, considera o aumento de tropas de maneira semelhante à empreendida no Iraque.
Assim como no Vietnã e no Iraque, porém, qualquer tentativa de impor à força um governo pró-ocidental estará fadada ao fracasso. O mundo ocidental só terá amigos no Iraque e no Afeganistão quando começar a tratar os habitantes destes países como merecedores dos mesmos direitos que seus próprios cidadãos, o que está muito distante de ocorrer. O que trará iraquianos e afegãos para o “lado ocidental” – assim como iranianos, sírios, palestinos – não são bombas, bloqueios, ou governos fantoches, mas respeito, cultura, alimento, e verdadeiras democracias.

Reflexões sobre a vitória de Obama

O fim da hegemonia WASP?
Para quem esperava que o “fator racial” tivesse um papel definidor nesta eleição presidencial estadunidense, o resultado em favor de Barack Obama foi uma verdadeira surpresa. O fator racial, efetivamente, foi fundamental para o resultado – porém no sentido oposto ao que eu e muitos analistas imaginavam. Os números revelados pelas pesquisas de boca-de-urna são impressionantes, e falam por si só: entre os eleitores afro-americanos (13% do total), o candidato Barack Obama teve acachapantes 95% dos votos, enquanto seu concorrente John McCain teve meros 4%. Além disso, Obama teve 66% dos votos dos “latinos”, 61% dos asiáticos e 65% das demais etnias. Por seu lado, McCain obteve 55% dos votos dos brancos (que representam 74% dos eleitores).
Estes números sugerem a configuração de uma coalizão afro-hispânica contra a hegemonia WASP (Branca, Anglo-Saxônica e Protestante) que desde as origens governa o país. Certamente não se trata de projeto conscientemente elaborado pelos grupos étnicos minoritários na sociedade estadunidense, mas é possível que com o tempo a união entre afro-americanos e latinos venha a se constituir de maneira mais formal e evidente. Também é bem possível que, uma vez no poder, Barack Obama venha a sofrer forte oposição por parte dos mais diversos grupos descontentes com sua eleição – resta torcer para que esta oposição não tome as formas extremas que foram usadas pelo governo que nos últimos oito anos esteve no poder.

Vitória fácil
Outro aspecto interessante que as pesquisas de boca-de-urna evidenciam é como a diferença geracional que separa os dois candidatos espelhou-se fortemente na votação obtida entre as faixas etárias. Entre os mais jovens (18 a 29 anos) Obama obteve 66% dos votos; na faixa dos 45 aos 64 anos, os dois candidatos dividiram igualmente os votos. Apenas entre os maiores de 65 anos McCain sagrou-se o vencedor, com 53% dos votos.
Para facilitar a tarefa do jovem e elegante candidato afro-americano, sua aprovação entre as mulheres foi de 56%, enquanto os homens dividiram-se igualmente entre os dois candidatos. Some-se a isto os votos de dois terços dos jovens, dois terços dos latinos e asiáticos, e mais de nove entre cada dez afro-americanos, e tem-se uma eleição mais do que garantida.

Bom ou ruim?
É difícil afirmar se, para o Brasil, a vitória de Obama tem mais aspectos positivos ou negativos. A postura dos democratas, mais intervencionista na economia – especialmente em tempos de crise – pode ser empecilho a algumas exportações brasileiras (por exemplo, o etanol), que devem esbarrar num maior protecionismo estadunidense. Por outro lado, a própria intervenção estatal na economia, ao estilo keynesiano, procurando retirar o país de um período de recessão, pode levar novamente a economia estadunidense a um novo período de crescimento, o que por sua vez terá reflexos positivos também aqui.
É no campo da política externa, porém, onde se esperam as maiores mudanças com o governo de Barack Obama – embora, no meu entender, tais mudanças devem ser mais cosméticas, ou de estilo, do que de conteúdo. Certamente deverá haver um retorno dos Estados Unidos aos organismos multilaterais de solução de conflitos, e talvez se estabeleçam conversações de paz com grupos hoje considerados do “eixo do mal”. Também deverá ser mais atuante a presença dos Estados Unidos em organismos e fóruns a respeito da preservação do meio-ambiente e do desenvolvimento das energias renováveis.
Não se devem esperar, porém, grandes avanços na mediação do conflito entre Israel e Palestina, uma vez que historicamente os democratas apóiam acriticamente o Estado sionista e será quase impossível ao jovem presidente questionar tal apoio. Também não parece ser tarefa fácil “sair do Iraque”, após terem os Estados Unidos construído dezenas de bases permanentes, além da maior embaixada estadunidense em todo o mundo, e não ter conseguido estabelecer um governo iraquiano confiável que mantenha unificada as três regiões do país e ainda faça frente ao vizinho Irã. Para complicar a tarefa de Obama, tudo indica que deve se manter a guerra contra a Al-Qaeda no Afeganistão, e a fracassada perseguição a Bin Laden. Como tantas outras guerras que por lá se travaram, porém, esta guerra não pode ser vencida, e apenas arranjos políticos e econômicos poderiam garantir aos EUA o que tanto almejam na região: os oleodutos e gasodutos para escoar a produção petrolífera do Mar Cáspio. A sombra do presidente Bush, de qualquer forma, dificilmente abandonará os primeiros anos do governo de Obama.

Melhor que o outro...
Como avaliação final, resta concluir que a vitória de Obama foi positiva, sobretudo em face do risco representado pelo seu opositor – que não apenas manteria as estúpidas políticas econômicas e externas de seu predecessor, como manteria o mundo inteiro em suspense diante da possibilidade de uma falha em seu coração deixar nas mãos da aspirante a vice-presidente, Sarah Palin, um arsenal nuclear capaz de acelerar a chegada do Armagedom.